Clima
Contributo
para o conhecimento das condições climáticas da Zona Vitivinícola
dos Biscoitos
A
escassa informação de base e de registos das condições climáticas
açorianas tem levado investigadores e técnicos à extrapolação dos
valores observados quase sempre no litoral em estações meteorológicas
vocacionadas para a climatologia sinóptica. Deste modo, a caracterização
geral da Zona Vitivinícola dos Biscoitos (Ilha Terceira) teve por
base as médias climáticas observadas na estação meteorológica das
Lajes/Aeroporto, a qual, segundo Bettencourt (1979), é representativa
das condições climáticas da costa Norte da Ilha Terceira, costa
onde se situa a freguesia dos Biscoitos. De acordo com aquele autor,
o clima é temperado húmido, com uma estação seca no Verão pouco
quente mas extensa, correspondendo à classificação de Csb de Koppen.
Numa
primeira tentativa de melhor compreender as condições climáticas
ocorridas ao nível das cepas (microclima), instalou-se um termo-higrógrafo
a 15 cm do solo numa curraleta empedrada durante o período compreendido
entre 18 de Maio e 30 de Setembro.
De
acordo com o esperado, as condições climáticas observadas ao longo
do referido período foram significativamente influenciadas pelo
efeito do calor adicional proveniente da difusão térmica do solo
empedrado.
A
partir das análises dos valores registados durante o período de
observação constatamos que:
- a
temperatura começa a subir a partir das 9 horas;
- o
valor máximo da temperatura é atingido por volta das 15 horas,
tendo-se registado valores superiores a 35º C;
- a
temperatura mínima ocorre, por norma, à volta das 3 horas;
- a
humidade relativa do ar é máxima às 3 horas. Do período das
9 às 15 horas a humidade relativa do ar anda à volta dos 60º.
Para
melhor compreensão das condições climáticas locais, e a sua influência
no crescimento e desenvolvimento da videira, analisámos os dados
obtidos, em função das condições consideradas ideais para esta cultura.
Assim, a temperatura óptima do crescimento e de actividade fotossintética
situa-se entre os 25 e 30º C com níveis de humidade relativa do
ar entre 60 e 70% (Champagnol, 1984). Temperaturas superiores a
35º C são prejudiciais ao desenvolvimento da videira, podendo ocorrer
fenómenos de escaldão dos bagos e a própria queima da vinha (Crespy,
1987 e Murisier, 1989). Comparando estes valores com os observados
no microclima da curraleta, constatamos que o regime térmico, nomeadamente
as temperaturas médias e máximas ao longo do período de observação,
são favoráveis ao desenvolvimento da videira.
No
que se refere á insolação (Champagnol, 1984; Crespy, 1987; Murisier,
1989; Goulart, 1981 e Mourisier et al., 1990) consideram como necessárias
médias valores que vão desde 1200 a 1600 horas. Na estação meteorológica
das Lajes/Aeroporto, estação de referência, durante o período vegetativo
considerado (Março a Setembro) a insolação ronda as 1410 horas,
pelo que se pode considerar que este valor se enquadra dentro das
necessidades médias exigidas pela cultura.
A
maior frequência de calmas ocorre no mês de Julho, sendo a sua direcção
do quadrante Sul-Sudueste, pelo que não é de prever grandes prejuízos,
dada a localização Norte da zona Vitivinícola dos Biscoitos.
As
necessidades médias em água no período vegetativo situam-se entre
300 e 600 mm, com uma precipitação anual compreendida entre 500
e 1200 mm. Na estação meteorológica das Lajes/Aeroporto a precipitação
normal situa-se à volta dos 1150 mm. No período compreendido entre
Março-Setembro, a precipitação total situa-se à volta dos 530 mm,
sendo o mês mais seco Agosto com uma precipitação normal inferior
a 40 mm, o que favorece a maturação.
Autor:
Luís Vasco Nunes (Engenheiro Agrícola).
Referências
Bibliográficas
Bettencourt,
M.L. (1979) - O clima de Portugal. Fascículo XVIII. O clima dos
Açores como recurso natural, especialmente em Agricultura e Indústria
do Turismo. Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica.
Champagnol,
F. (1984) - Physiologye de la Vigne et de Viticulture Generale.
331 p.
Crespy,
A. (1987) - Viticulture d'aujourd'hui. Editions J. B. Bailiére,
175 p.
Goulart,
I. M. (1991) - Contributo para o estudo da viticultura na Ilha do
Pico. Universidade dos Açores. Departamento de Ciências Agrárias.
Relatório de estágio.
Murisier,
F. (1989) - Echaudage des raisins en Valais. Revue suisse Vitic.
Arboric. Hortic. Vol. 21(5): 293-394.
Murisier,
F.; Jelmini, G.; Ferreti, M.; Madonna A. (1990) - Amélioration du
débourrement du Merlot au moyen de la cyanmide hydrogène. Revue
suisse Vitic. Arboric. Hortic. Vol. 22(6): 399-402.
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